As últimas entortadas de Mané passaram por Alagoas

Alguns dizem que toda história tem um final feliz, outros dizem que o final de tudo sempre é melancólico. Talvez, Mané Garrincha, a lenda que impressionou o mundo e deu show por onde passou, se encaixe nessas duas preposições ao mesmo tempo. No início da década de 70, já sem as condições físicas de outrora, o maior jogador da história do Botafogo iniciou uma Via Crúcis pela América do Sul.

Boca Juniors-ARG, Nacional-URU e Deportivo Barranquilla-COL foram agraciados com os últimos suspiros do Anjo das Pernas Tortas, mas, no caloroso Nordeste, ele recebeu um abraço do povo. Mané deu voltas pelo país, como garoto-propaganda de diversos times, mas a dobradinha ASA-CSA lhe gerou lágrimas que poucas vezes foram vistas.

Quis o destino que o Rei Mané vestisse azul no Estádio Rei Pelé e assim ele foi, com sua simplicidade de sempre, desfilar por Maceió. Maceió que fora sempre conhecida pelas suas belezas naturais, pelas suas grandes praias e pela culinária, simplesmente parou. Parou para apreciar um dos maiores da história e degustar uma peixada, enquanto a “Alegria do Povo” driblava. Dribles que, mesmo sem o vigor de sempre, mais pareciam ter o ritmo de uma prosa de Graciliano Ramos se juntando à simplicidade e beleza das costuras características do Pontal da Barra. Garrincha e Alagoas casaram muito bem e, juntos, lembravam o sabor de um Baião de Dois.

Em plena Maceió, Mané bailou. Fez o que poucos faziam, mesmo baleado, abalado e em decadência. Decadência? Na memória do amante do futebol isso nunca existiu. Na memória do povo da cidade, ficaram guardadas as canetas e as tabelas com outra lenda: Dida, o atacante campeão mundial, que só foi reserva de Pelé em toda a carreira e é um dos maiores ídolos de Zico. A dupla que deu show nos rivais Botafogo e Flamengo, fez um verdadeiro salseiro quando se encontrou com a camisa do Azulão. Pelo menos uma vez na vida, esse dueto arretado deu o ar da graça.

Dida e Garrincha, lado a lado, antes de entrarem em campo juntos.

Talvez, a Alegria do Povo, naquele momento, não era só Garrincha, era a história. O estádio estava fedendo futebol, mas daquele futebol lindo, o verdadeiro, que seu pai conta, o que proporcionou que Dida recebesse uma bola, finalizasse e corresse pra um abraço. Um abraço que não era normal, era o abraço de Mané, mas não qualquer Mané, era o Mané com a camisa do Azulão.

Quando o árbitro Ivanildo Jacinto finalizou o certame, que terminou 3 a 1 para o CSA, os aplausos foram a tônica do casamento entre Mané Garrincha e Alagoas, que não podia acabar ali. Três dias depois a história se repetiu, Mané em campo, dessa vez em Arapiraca e com a camisa do ASA. Cidade parada, poeira subindo no estádio que mal tinha grama no campo e não tinha uma arquibancada. “Que se dane, é o Mané” disseram as mais de 5 mil pessoas que enfrentaram o sol forte, amontoados no alambrado, para ver Garrincha tabelando com Laranjeiras.

Garrincha, dessa vez jogando pelo ASA.

Veludo, o goleiro do time de Arapiraca, dessa vez, riu. Garrincha estava do seu lado e quem teria que sofrer era Zé Galego, que defendia a meta do CSA. Como algo combinado, a bola passou pelo pé do craque campeão do mundo e caiu no pé de Cambota aos 32 do segundo tempo. Caixa e o decreto de uma vitória pra cada lado. Do estádio, Zé Lira, lateral-esquerdo do ASA saiu com uma taça da partida: Mané doou suas chuteiras para o jovem que começava sua caminhada no futebol.

Foi um adeus ao povo alagoano, que nunca vai esquecer da espetacular história de um driblador com pernas tortas e doloridas que vestiu azul e preto, fazendo a alegria de todos por ali.

Aliás, quem um dia vai ter a audácia de se esquecer de Mané Garrincha?

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