O jogo dos sonhos: o desabafo de um atleticano sobre o melhor jogo da história do clube

Athletico x Boca Juniors, qual atleticano não sonhou com esse jogo um dia? Acredito que todos. Mas o negócio é o seguinte, se você chega para um atleticano mais antigo, até mesmo meu pai, e pergunta se lá pelos anos 80 ele imaginava que, em 20 ou 30 anos, o Athletico seria campeão de um torneio continental e, pouco tempos depois, enfrentaria o todo poderoso Boca Juniors a resposta é a mesma. Era difícil só de imaginar e provavelmente na cabeça dos mais sonhadores tomaríamos um vareio. Eu, particularmente, quando ouço falar em Boca Juniors, lembro da final da Libertadores de 2007, quando Riquelme orquestrou um tremendo baile diante do Grêmio.

Enfim, parece que esse sonho se tornou realidade. Ontem, eu acordei bem antes do horário e ainda sem acreditar: “é hoje mesmo? Vamos jogar contra o Boca Juniors?”. E sim, isso tudo estava acontecendo. Voltei a dormir e acordei de verdade alguns minutos depois, peguei o celular e o assunto era o mesmo em todos os lugares: o duelo das 21h30 desta terça-feira. O pensamento era apenas um, jogo de Libertadores contra o gigante Boca Juniors.

Como a ansiedade não dava trégua, decidi ir para a região do estádio aproximadamente oito horas antes do jogo. Era um dia atípico, se eu tinha a oportunidade de viver aquilo, gostaria de aproveitar da maneira mais intensa possível. Queria estar perto de todas as pessoas que eu gosto e fazer questão de falar sobre a grandeza do evento que o Joaquim Américo iria sediar naquela noite.

As horas foram passando, as pessoas chegando, a tensão tomando conta de todos os rostos, pessoas roendo unhas, mãos na cabeça bagunçando os cabelos, passos inquietos. E eu realmente estava feliz, eu estava perto de muitas pessoas que são importantes para mim. Meu pai foi ao jogo depois de muito tempo, minha namorada estava ali, meus melhores amigos. O clima não poderia estar melhor.

Entrei cedo no estádio. Por volta das 20h eu já estava em campo, onde trabalho como gandula para o meu time. As horas pareciam se arrastar, as tão esperadas 21 horas e 30 minutos não chegavam nunca, eu via o time aquecendo, tocando bola e a partida não começava logo.

Voltei para o nosso vestiário e lentamente os minutos foram passando. Me arrumei e fui direto para a minha posição de campo aguardar o começo da partida.

Foi tenso, eu tentava segurar o lado torcedor e me concentrar apenas em fazer um bom trabalho. Mas estava difícil, principalmente por que o Boca havia começado melhor, teve uma chance boa com Tevez e logo em seguida com Benedetto, que cabeceou para fora. O jogo foi se transformando, o Athletico foi se encontrando e então Benedetto errou uma virada de jogo, Rony roubou a bola e começou a jogada que abriu o placar, que acabou numa assistência meio sem querer de Lucho González para o gol do argentino Marco Ruben. A Baixada explodia de uma maneira insana, os gritos ecoavam pelo estádio do bairro Água Verde. Eu gritava, pulava, quando percebi estava até chorando um pouco, com a respiração meio ofegante, sentindo aos poucos aquela tensão indo embora. Viver aquilo era maravilhoso.

O jogo ficou um pouco tenso no fim do primeiro tempo, alguns jogadores das duas equipes se estranharam, mas nada grave. Eu fui para o intervalo em choque, o meu time estava ganhando do hexacampeão Boca Juniors. Conversava com meus companheiros ainda sem acreditar, sem nem imaginar que a melhor parte ainda estava por vir.

Voltamos para o segundo tempo, o Boca queria jogo, mas o Athletico era muito organizado, soube neutralizar bem. Eu ainda estava tenso, o jogo estava longe de ser ganho. A partida ficou lá e cá até pouco antes da metade do segundo tempo, quando em um erro do time argentino, Bruno Guimarães conduziu a bola até a área e tocou para Ruben, de novo, Athletico 2×0. A Arena explodiu, o barulho era ensurdecedor, há anos eu não via uma noite como aquela. A torcida empurrava a equipe e o time correspondia em campo. Estávamos vencendo por 2 tentos um dos maiores times da América, quiçá do Mundo.

O jogo se tornou completamente do Athletico. Dávamos olé nos caras, tocando bola em espaços curtos e colocando eles na roda. Até que então, em um cruzamento, Rony chutou na trave e lá estava Ruben mais uma vez para completar seu triplete. Nesse momento, eu estava completamente em êxtase, comemorava o gol igual uma criança pulando pela beira do campo e gritando. Virei para trás e tinha um gurizinho de uns 7 anos feliz da vida, que me chamou para um abraço, abracei ele e ali eu desabei, chorava e via meu time fazer 3 a 0 no Boca Juniors. O confronto tomou seu rumo para o final, ainda com total domínio do Furacão. O juiz apitou fim de jogo, eu ainda não acreditava, olhava para a Baixada cheia comemorando. Vencemos e vencemos bem! Ainda escrevendo esse texto, eu estou numa mistura de tensão, alegria e ansiedade pelo jogo da Bombonera, em que eu terei a oportunidade de conhecer mais um estádio nessa caminhada como atleticano.

Não tenho mais palavras, foi uma noite mágica, aquelas que a gente quer contar para todo mundo, para os filhos, netos, amigos. Jamais esquecerei. Foi o jogo dos sonhos. Ainda não caiu a ficha que foi real e, se isso for um sonho, eu peço por favor para que não me acordem.

Imagem: Guilherme Jaremtchuk

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *