Como o descaso culminou na queda de um dos últimos camisas 10 do futebol brasileiro

Como o descaso culminou na queda de um dos últimos camisas 10 do futebol brasileiro

Por: Antonio José

Jadson Rodrigues da Silva até alguns anos atrás era o meia que muitos treinadores sonhavam em ter em seu elenco, com passes que poucos davam, qualidade na bola parada, solícito e polivalente. O atleta chegou a jogar muitas vezes aberto pela direita, mais recuado ou até mesmo dentro da área, fazendo a função de falso nove. Mas o que aconteceu com o rendimento do camisa dez?

Muitas vezes só Jadson e às vezes Jadshow ou Magic Jadson, o meio-campista começou muito bem no Athletico. Muito importante na conquista de dois títulos paranaenses pelo Furacão, rapidamente chamou atenção de clubes da Europa e se transferiu ao Shakhtar Donetsk em 2005.

Nos campos gelados do leste europeu se tornou ídolo, prestando seus serviços por 7 anos e conquistando inúmeros campeonatos ucranianos. Seu auge foi quando anotou o gol do título da Copa UEFA (hoje Liga Europa) de 2009. Com grandes atuações, chamou atenção de clubes brasileiros e chegou até a ser convocado para a Seleção. Visando continuar com espaço na Amarelinha, Jadson acertou sua volta no Brasil em 2012 para atuar no São Paulo, com status de craque e rasgado por elogios de Raí. Na teoria, um grande reforço, na prática, nem tanto: o jogador teve muitos altos e baixos e não vingou com a camisa tricolor. Perdendo espaço no elenco Jadson foi protagonista da polêmica troca por Alexandre Pato com o rival Corinthians. Enquanto Pato assinou contrato de empréstimo de dois anos com o Tricolor Paulista, Jadson vinha em definitivo em um curto contrato com o Timão.

Tendo bons e maus momentos em seu início com a camisa alvinegra, Jadson terminou o ano de 2014 sem a tão sonhada convocação para a Copa do Mundo. A temporada seguinte seria um divisor de águas na carreira do camisa dez. Com Tite revitalizado após um período de estudos no Velho Continente, o Corinthians de Jadson, Renato Augusto e Elias encantou o país e conquistou o Brasileirão daquele ano de maneira incontestável. Com lugar carimbado na seleção do campeonato e no coração dos torcedores, o meio-campista quebrou em um espaço de dois anos todo o estigma que qualquer jogador vindo de um rival carrega ao se transferir, com atuações excepcionais e dedicação o meia rapidamente conquistou o coração da fiel torcida.

Depois de um enorme desmanche no elenco corinthiano em 2016 (saíram Renato Augusto, Jadson, Ralf e Vagner Love), o camisa dez volta ao Timão no ano seguinte e provou ainda ser um jogador diferenciado. Jadson foi peça importantíssima para o título paulista e para a campanha avassaladora no Brasileirão de 2017. Com cada vez mais títulos no currículo vestindo a camisa do Corinthians, “Jadshow” se consolidou de vez como ídolo do clube.

Após um 2018 fraco de todo o elenco em geral, hoje com 36 anos Jadson possui contrato até o final de 2020 e já não apresenta o mesmo futebol que um dia encantou o país inteiro. As pernas já, muitas vezes, não acompanham o que passa na cabeça do jogador. Com mais um ano de contrato a servir e esporadicamente entrando em jogos que fogem totalmente da sua característica, é notável o equívoco da diretoria e comissão técnica que falham em proteger um dos poucos ídolos presentes hoje no elenco do Timão.

Muito como o que aconteceu com Danilo em 2018, o camisa dez é vítima de um planejamento equivocado e precipitado de uma diretoria que erra de maneira grosseira com os grandes jogadores que um dia vestiram a camisa do clube. A falta de noção de uma comissão técnica, que mesmo trabalhando toda semana com o elenco, continua a expor um ídolo que caminhava a se aposentar no clube onde encontrou seu melhor futebol e se identificou com a torcida, de forma que o mesmo seja alvo de críticas, xingamentos e tudo que acaba fazendo com que a sua imagem construída com dedicação e conquistas, seja arranhada e queimada por motivos fora de seu controle.

Agora se espalham notícias de que diretoria e Jadson se acertam para a sua saída do clube em 2020. Isso mesmo! O camisa dez, jogador mais experiente e um líder dentro do vestiário, com um currículo extraordinário e o nome marcado na história do clube, encaminha sua saída pelas portas dos fundos e de cabeça baixa e escorraçado. No mesmo clube, onde há poucos anos vivia a melhor fase da carreira e colecionava títulos.

A história de Jadson no Corinthians representa muito do que anda acontecendo com os ídolos remanescentes no futebol brasileiro. Capítulos históricos de atletas que marcaram época e seu nome na história de um clube são ignorados e muitas vezes recompensados por ingratidão e o descaso. De pouco a pouco, a cultura dos ídolos no futebol brasileiro vai se acabando, em um cenário em que poucos possuem amor e respeito por clube e instituição, a minoria restante é diminuída e desrespeitada por homens de ternos, detentores do poder, visando na maioria das vezes apenas o lucro e ignorando toda a tradição carregada por esses jogadores.

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