O VAR acabou com a vantagem da mesma linha?

O VAR acabou com a vantagem da mesma linha?

por: João Miguel Bastos

Pra quem não torce pra time europeu, ver mata-mata de Champions é como assistir a uma grande disputa de pênaltis: muita diversão, emoção à flor da pele, mas sem sofrimento da sua parte.
Pra quem não torce pra time europeu, ver mata-mata de Champions é como assistir a uma grande disputa de pênaltis: muita diversão, emoção à flor da pele, mas sem sofrimento da sua parte.

Sou 100% a favor do VAR (isso é exatamente o que quem é contra o VAR falaria, mas é sério). É um recurso que veio pra melhorar o futebol e corrigir injustiças. Inclusive acho besteira esse argumento de que o VAR “tira a emoção” do grito de gol. Porque agora quando o VAR entra em ação na hora do gol, a gente tem 2 comemorações, uma a mais: tem a do gol, a da confirmação ou da anulação.

Isso é muito massa. Tem vários exemplos disso, só que o mais marcante aconteceu nas quartas da Champions 18/19, entre Manchester City X Tottenham. Aos 49 do segundo tempo, o City faria seu quinto gol da partida, que seria o da classificação. Torcida em êxtase. Mas o VAR entrou em ação e assinalou impedimento do Agüero, corretamente. Quando isso aconteceu, quem ficou em polvorosa foi a torcida dos Spurs. Principalmente pra quem não tinha envolvimento afetivo ou passional por um dos times, foi bem divertido acompanhar aquilo.

Pra quem não torce pra time europeu, ver mata-mata de Champions é como assistir a uma grande disputa de pênaltis: muita diversão, emoção à flor da pele, mas sem sofrimento da sua parte.

Adoro o VAR. Mas, pra mim, ele tem um problema sério. Que é no impedimento. Até 1991, a regra do impedimento dizia que se o atacante estivesse na mesma linha que o defensor, ele estaria impedido. Só que isso mudou, em prol do jogo. Pra ter mais chances de gol.

Mas hoje, a sensação que fica é que o VAR tá, de certa forma, acabando com a vantagem da mesma linha. Porque, se a gente for analisar minuciosamente as imagens, como estão fazendo, é praticamente impossível ter um jogador em situação de exata mesma linha do que o outro.

Como o VAR consegue captar lances bem “ajustados”, que é um termo que os analistas de arbitragem gostam de usar, ele acaba identificando impedimento de poucos centímetros de diferença, que até com a tecnologia fica difícil de ver. Foi o caso do impedimento do Gabigol no primeiro dos dois gols dele anulados contra o Grêmio.

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Recentemente também teve o caso do gol do Werley, pelo Vasco, no Brasileiro. Muito difícil cravar mesmo com a ajuda da imagem. Também teve um gol anulado do Marquinhos Gabriel contra o River, na Libertadores, que mesmo com a imagem, ainda ficou dúvidas. Esse último caso talvez tenha sido um pouco mais claro, mas ainda assim gera debate. Aí é que tá.

A impressão que fica é que, por conta do VAR, que tem a proposta de reduzir os erros a quase zero, eu sinto que o futebol acabou regredindo nesse aspecto específico, porque praticamente acabou com a regra da vantagem mesma linha. Isso é bem complicado e não vejo uma solução fácil pra esse problema.

Pra mim, se mesmo com o auxílio da imagem, ainda causar dúvida, a recomendação deveria ser pra validar o lance. Poderia ter uma certa tolerância. Porém, a dúvida costuma surgir em lances subjetivos. E o que gera debate é a subjetividade. Mas o impedimento, em tese, é uma coisa objetiva. Ou está impedido, ou não está. Então é no mínimo irônico deixar um lance objetivo pra “interpretação”.

No caso do Grêmio x Flamengo, com as regras que temos, o Gabigol tava impedido. Assim como estava o Werley e o Marquinhos Gabriel. Mas a imagem que foi mostrada no jogo não é muito conclusiva. Mesmo com a imagem, acho bastante difícil cravar que ele estava em posição irregular. Só que aí argumentam que eles têm uma tecnologia na sala do VAR e nem sempre a imagem que disponibilizam é o recurso que os assistentes de vídeo usam pra poder analisar. Às vezes a arbitragem tem imagem com perspectiva, com duas linhas, uma linha que identifica a posição fazendo uma projeção do eixo do ombro do jogador, por exemplo… Pelo que é transmitido pro torcedor, parece que o próprio Vale do Silício fica dentro da cabine do VAR com os três assistentes de vídeo.

Beleza. Mas a CONMEBOL divulgou o áudio da análise da semifinal e, ao que parece, a imagem que vimos na transmissão foi a mesma utilizada pelos assistentes. E isso também é um problema.

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Apesar disso, vale pontuar que a falta de transparência incomoda porque nem sempre sabemos quais são os recursos usados pela sala do VAR. É uma atitude legal abrirem o jogo, mas também não acho que precisam ficar divulgando áudio em toda decisão polêmica tomada, até porque isso abre margem pra verborragia clubista e questionamentos ameaçadores de dirigentes.

Porém, ser transparente não é ruim. Quando vemos a imagem usada pelo VAR ou escutamos os áudios, isso escancara ainda mais os erros ou os acertos dos juízes. O problema não tá na ferramenta em si.

Mas voltando à questão da tolerância que sugeri, isso é uma coisa subjetiva. E o impedimento é uma regra objetiva. Ou tá, ou não tá. Mas aí entra um novo problema que seria o limite da tolerância. Se colocarmos um limite de, sei lá, 5 centímetros, ainda teria discussão pra saber se tava 4,9 ou 5,1 centímetros à frente.

Talvez a solução esteja em uma câmera 360º como existe na La Liga, mas aí esbarraria no preço do equipamento e, mesmo assim, teria lances quase milimétricos que poderiam causar revolta. Acho que ter uma câmera como a da Champions League, alinhada especialmente para o VAR, já ajudaria bastante e não seria tão caro quanto implementar um sistema 360º.

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Outra coisa que quase não é falada é a espessura da linha na TV. Vi uma galera da torcida do Flamengo reclamando também que o pé do Gabigol tava em cima da linha e isso deixava mais difícil de enxergar ou analisar… Então tem essa questão também. A “linha” é invisível, se na televisão é colocada com uma espessura X, essa grossura deveria existir para ajudar a analisar. Mas em lances de poucos centímetros como esse, acaba atrapalhando. Por isso que talvez uma câmera 360º ajudaria a analisar. Mas não é uma solução barata e também não acho que seja a melhor saída. Vi muitos vídeos e prints na internet pra analisar se tava impedido ou não. Mas a questão aqui não é essa. Não é sobre esse lance especificamente, se o Gabigol estava em posição irregular. E sim sobre o quanto chega a ser exaustivo ter que discutir poucos centímetros de diferença. Isso é mesma linha! Inclusive, o gol do Bruno Henrique contra a Chapecoense gerou uma discussão parecida. Teve gente na internet fazendo montagem pra poder provar que estava (ou não impedido). Pra mim, também é mesma linha!

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Em julho, o Juca Kfouri sugeriu mudar a regra para que permita um corpo na frente, mas nesse caso o atacante já teria uma vantagem significativa. Talvez poderia mudar permitindo meio corpo, mas aí cairia na subjetividade e na medição quase milimétrica de novo. O torcedor que seria “vítima” ainda se sentiria prejudicado. Enfim, a solução me parece realmente distante. Mas acho que tem que mudar. Porque, pra mim, nesse sentido, o VAR acaba com a vantagem da mesma linha. E o artifício que veio pra fazer o futebol evoluir, estaria o fazendo regredir mais de 30 anos.

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