Mercosul desigual: Brasil impõe à Argentina e ao resto da América do Sul o peso de cifras impactantes

Matéria traduzida pela nossa equipe com autorização do autor. Texto original publicado por Alejandro Casar González no La Nación. Clique aqui e leia o texto original em espanhol! | Fotos: Reprodução/Staff Images/CONMEBOL

Com a alta quantidade de jogos e um calendário congestionado, os clubes brasileiros contratam jogadores badalados e não há nada que os controle

Em tempos de Big Data, os números falam por si só: nenhum dos 13 times argentinos que disputaram competições internacionais em 2021 chegaram às semifinais. A final da Libertadores de 2018, com o “superclássico” em Madri, é manchada de sépia. Velho. De outra época. Apenas River (Libertadores) e Rosario Central (Sul-Americana) alcançaram as quartas de final na atual temporada.

Além de erros táticos ou a contundência ofensiva dos rivais de seus confrontos, o que ocorre fora das quatro linhas explica a diferença entre os times do Brasil e da Argentina. Os clubes de lá e os de cá. O futebol argentino, empobrecido e acostumado às piruetas organizacionais, e o brasileiro, cujas equipes podem jogar 80 partidas em um ano sem que ninguém proteste. Ou contratar atletas de classe mundial com contratos milionários. Sem que ninguém controle.

No Brasil se joga, se joga e se joga. Primeira questão: o calendário brasileiro não é “previsível”, mas é “constante”. Sempre tem futebol, e havia até no Maracanã, enquanto a 200 metros do gramado se instalava um hospital de campanha durante a pandemia do coronavírus.

No começo do ano se joga os estaduais. E já em abril, se disputa o Brasileirão. Que não para nem sequer durante as datas FIFA, algo que revolta os torcedores: os times perdem seus melhores jogadores em jogos decisivos, cada vez que são convocados por Tite. E até são chamados em forma protocolar: viajam com a delegação, mas jogam outros.

Os campeonatos estaduais são disputados quase como uma obrigação. As razões? Políticas. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é eleito pelos representantes das federações estaduais, cujo torneio local é a principal fonte de renda. Então, exigem atenção exclusiva em troca de votos.

Equipes de um mesmo país competindo para ver quem é o mais bem pago. Os torcedores deliram: é o primeiro troféu do calendário. Incluindo algumas equipes que assinam contratos de TV que os obrigam a colocar em campo as suas estrelas, para evitar que “o produto” perca o interesse.

O mercado futebolístico brasileiro é a locomotiva do continente. A Série A do Brasileirão tem 20 equipes, seis a menos que a Liga Profissional Argentina. Segundo o portal Transfermarkt, o valor de mercado desses 20 elencos supera 1 bilhão de euros. As equipes argentinas, em vez disso, estão cotadas em 788 milhões. Primeira diferença importante: jogar no Brasil aumenta o valor de mercado de um jogador. Consequência óbvia: os clubes brasileiros vendem melhor que os argentinos.

Falar das vendas é citar mais um triunfo de goleada do Brasil. Nesta última janela de transferências, os clubes brasileiros negociaram 223 jogadores. A balança comercial registra superávit: ganharam quase 118 milhões de euros e gastaram apenas 21,5 milhões.

A primeira divisão argentina, por outro lado, vendeu 77,4 milhões de euros e gastou algo em torno de 20 milhões. Com um detalhe: apenas um clube (Boca Juniors) foi responsável por quase 50% destes valores, graças aos quase 10 milhões de euros que pagou por Norberto Briasco, Luis Advíncula, Nicolás Orsini, Esteban Rolón e Juan Ramírez. Sem os gastos dos xeneizes, a diferença entre ambos mercados teria sido ainda maior.

A televisão, que para muitos clubes argentinos implica em cobrir o gasto total de seus elencos profissionais e é sua principal renda, aporta muito mais dinheiro no Brasil que na Argentina.

A tabela dos que mais arrecadaram na temporada 20-21 foi liderada pelo Palmeiras, com 200 milhões de reais, seguido por Flamengo (180 milhões), Grêmio e Corinthians (ambos com 162 milhões). O São Paulo, com 127 milhões, completa o Top 5. No total, os 20 clubes da Série A receberam R$1 bilhão e 756 milhões – 324 milhões de dólares, na cotação atual. Isso equivale a quase nove vezes mais que o contrato de TV do futebol argentino!

O presidente do Argentinos Juniors, Cristian Malaspina, explicou a situação em um tweet: “A TV é a principal fonte de arrecadação da maioria dos clubes argentinos; no ano de 2017 o contrato representava 100 milhões de dólares ao ano; em 2021, representa 43 milhões de dólares ao ano. Sem dinheiro não há hierarquia, não há como competir: tem que atualizar”.

Os últimos nomes que seduziram o mercado brasileiro dão uma ideia de sua importância no cenário do futebol mundial. Detalhe: o real é uma moeda muito mais forte que o peso argentino. As restrições cambiais fazem com que os clubes argentinos já não assinem contratos em dólares, mas sim em pesos, com valores de limite para a moeda estadunidense.

Chegaram nos clubes brasileiros jogadores como Diego Costa (Atlético Mineiro), Renato Augusto, Giuliano e Willian (Corinthians), Kenedy e Andreas Pereira (Flamengo), Matheus Fernandes (Palmeiras). No Brasil, também chegou o argentino Gabriel Mercado (ex-River e Racing) para vestir a camisa do Internacional.

O caso de Diego Costa sobressai ao resto. O hispanobrasileiro, ex-jogador da seleção espanhola, vem em fim de contrato com o Atlético de Madrid e, segundo notícias da imprensa brasileira, ganhará cerca de 300 mil dólares por mês, um valor impagável no futebol argentino. É um jogador que reforça um plantel que tem  Ignacio Fernández (ex-River) e que conta com figuras como o brasileiro Hulk e o chileno Eduardo Vargas e com o também argentino Matías Zaracho.

Curiosidade: O Atlético Mineiro contratou Diego Costa sem estar classificado para as semifinais da Copa Libertadores. A contratação de Diego Costa não dependia do dinheiro da Conmebol . A equipe de Minas Gerais está construindo um novo estádio, que espera inaugurar no final do ano que vem. E vem sendo “impulsionado” por um mecenas, o empresário da construção civil Rubens Menin.

Outro detalhe: Menin é amigo de Bolsonaro. Segunda questão: quando o argentino Jorge Sampaoli se tornou o treinador da equipe mineira, seu contrato foi assinado na casa de…Menin. Terceira informação: a imprensa brasileira fala de Rafael Menin, filho de Rubens, como o “presidente de fato” do clube carrasco de River e Boca na Copa Libertadores de 2021.

O Atlético Mineiro poderia contratar jogadores de classe mundial sem a ajuda de investidores externos? A resposta é não. Por que fazem isso? “Doping financeiro”, disse uma fonte especialista em futebol brasileiro. Parece contundente, mas não falta razão: o Brasileirão não tem fair play financeiro.

Há um tempo, a Confederação Brasileira contratou Cesar Grafietti, especialista em economia e gestão de clubes, para produzir tais normas. O especialista entregou seu trabalho há dois anos, porém todo o estudo nunca foi implementado. Outras fontes explicam as razões: “Têm que passar pelas relações políticas da CBF com os clubes”. Traduzindo: ninguém quer algo que controle porque a todos é conveniente que o futebol brasileiro seja um descontrole.

Esse caos econômico-financeiro permitiu ao Santos, por exemplo, jogar a semifinal da Libertadores 2020 contra o Boca com o venezuelano Jefferson Soteldo entre os titulares. O Santos nunca pagou por sua transferência ao clube de origem do atacante – Huachipato do Chile.

Houveram queixas formais e até uma punição da FIFA. Soteldo acabou indo para a MLS, porém, jogou como se nada de irregular estivesse acontecendo. O mesmo aconteceu com Cruzeiro e Botafogo, que gastaram muito mais do que suas finanças permitiam. Pagaram os seus excessos com o rebaixamento.

Como se não fosse suficiente, apesar da TV, dos capitais externos e a falta de controle, os clubes brasileiros têm a Copa do Brasil, um torneio que paga 12 milhões de dólares ao campeão. Esta cifra, astronômica para um torneio doméstico, é parecida com a que recebeu o Palmeiras por vencer a final da Copa Libertadores 2020: US$ 15 milhões.

Com este cenário, resta ao futebol argentino se olhar no espelho e aprender com seus próprios casos de sucesso. Defensa y Justicia, com uma arrecadação muito menor que o Palmeiras, é o atual campeão da Recopa Sul-Americana.

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